{"id":560,"date":"2026-04-12T12:34:07","date_gmt":"2026-04-12T15:34:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/?p=560"},"modified":"2026-04-12T12:42:05","modified_gmt":"2026-04-12T15:42:05","slug":"se-o-mundo-e-liquido-o-coletivo-precisa-ser-mais-solido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/se-o-mundo-e-liquido-o-coletivo-precisa-ser-mais-solido\/","title":{"rendered":"Se o mundo \u00e9 l\u00edquido, o coletivo precisa ser mais s\u00f3lido"},"content":{"rendered":"\n<p>A chamada \u201cSala dos Professores\u201d nunca foi apenas um lugar.<br>\u00c9 um s\u00edmbolo.<br>E, como todo s\u00edmbolo, revela tanto o que une quanto o que separa.<\/p>\n\n\n\n<p>No cotidiano escolar, quase sem perceber, naturalizamos divis\u00f5es. Portas que parecem neutras passam a carregar significados. Presen\u00e7as se tornam \u201cadequadas\u201d ou \u201cinadequadas\u201d. E, assim, o que deveria ser um espa\u00e7o de encontro come\u00e7a, silenciosamente, a selecionar quem pode permanecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se diz que um diretor ou qualquer outro trabalhador da escola n\u00e3o pode entrar na sala dos professores, n\u00e3o se trata apenas de organiza\u00e7\u00e3o. Trata-se de delimita\u00e7\u00e3o. De pertencimento negado. De uma fronteira que n\u00e3o est\u00e1 escrita \u2014 mas \u00e9 sentida.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma porta se fecha,<br>e com ela, uma ideia de coletivo se enfraquece.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma regra se imp\u00f5e,<br>e com ela, um sil\u00eancio se instala.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 nesse ponto que a reflex\u00e3o ganha profundidade. Karl Marx nos ajuda a compreender que as rela\u00e7\u00f5es de trabalho n\u00e3o s\u00e3o neutras; elas estruturam a forma como nos vemos e como nos posicionamos. A divis\u00e3o entre fun\u00e7\u00f5es pode ser necess\u00e1ria do ponto de vista organizacional, mas torna-se problem\u00e1tica quando se transforma em distanciamento humano, quando rompe aquilo que deveria permanecer como base comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque h\u00e1 algo que insiste em permanecer, apesar de todas as tentativas de separa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor continua sendo um trabalhador.<br>A merendeira continua sendo uma trabalhadora.<br>O porteiro continua sendo um trabalhador.<br>O professor continua sendo um trabalhador.<\/p>\n\n\n\n<p>Mudam os pap\u00e9is, mas n\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o.<br>Mudam as responsabilidades, mas n\u00e3o a base comum.<\/p>\n\n\n\n<p>E ainda assim, o olhar muda.<br>E, \u00e0s vezes, o tratamento tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse deslocamento silencioso que se revela o que Pierre Bourdieu descreve como viol\u00eancia simb\u00f3lica. N\u00e3o \u00e9 preciso proibir explicitamente. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio levantar muros concretos. Basta que todos, pouco a pouco, passem a acreditar que certos lugares n\u00e3o lhes pertencem.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, sem perceber,<br>o trabalhador come\u00e7a a se afastar do trabalhador.<\/p>\n\n\n\n<p>O coletivo come\u00e7a a se fragmentar.<\/p>\n\n\n\n<p>O que era comum se torna separado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas questionar essas estruturas \u00e9 um ato de consci\u00eancia. Friedrich Nietzsche j\u00e1 alertava para o perigo das verdades que nunca foram interrogadas. Nem tudo que se mant\u00e9m merece permanecer. Nem tudo que \u00e9 aceito \u00e9, de fato, leg\u00edtimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionar n\u00e3o \u00e9 romper por romper.<br>\u00c9 abrir espa\u00e7o para pensar.<br>\u00c9 recusar o autom\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>E, ao fazer isso, nos aproximamos daquilo que Paulo Freire prop\u00f5e como ess\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o: o di\u00e1logo. A constru\u00e7\u00e3o coletiva. A humaniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o verdadeira onde h\u00e1 distanciamento. N\u00e3o h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o cr\u00edtica onde h\u00e1 exclus\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p>Se todos participam da constru\u00e7\u00e3o do ambiente escolar,<br>todos precisam ter espa\u00e7o para existir dentro dele.<\/p>\n\n\n\n<p>E existir n\u00e3o \u00e9 apenas trabalhar.<br>\u00c9 tamb\u00e9m conviver.<br>\u00c9 tamb\u00e9m respirar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse ponto que a ideia de \u201cSala dos Trabalhadores\u201d ganha for\u00e7a \u2014 n\u00e3o como provoca\u00e7\u00e3o vazia, mas como necessidade concreta. E aqui, o pensamento de Domenico De Masi nos convida a uma mudan\u00e7a de olhar. O \u00f3cio criativo n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de trabalho, mas uma outra forma de produzi-lo. \u00c9 no descanso, na conversa, na troca aparentemente despretensiosa que surgem ideias, solu\u00e7\u00f5es e sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Parar tamb\u00e9m \u00e9 produzir.<br>Conversar tamb\u00e9m \u00e9 construir.<br>Estar junto tamb\u00e9m \u00e9 transformar.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cSala dos Trabalhadores\u201d passa, ent\u00e3o, a ser mais do que um espa\u00e7o f\u00edsico. Torna-se um territ\u00f3rio de reconstru\u00e7\u00e3o cotidiana. Um lugar onde o cansa\u00e7o encontra acolhimento e onde a individualidade encontra o coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>E essa necessidade se intensifica no mundo contempor\u00e2neo. Zygmunt Bauman descreve a sociedade atual como l\u00edquida \u2014 inst\u00e1vel, veloz, fragmentada. Tudo muda rapidamente. Rela\u00e7\u00f5es se tornam fr\u00e1geis. O conhecimento se multiplica, mas nem sempre se aprofunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, ser professor \u2014 e ser trabalhador da educa\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e9 lidar com incertezas constantes. J\u00e1 n\u00e3o basta ensinar. \u00c9 preciso mediar, orientar, reconstruir sentidos em meio ao excesso de informa\u00e7\u00e3o e \u00e0 falta de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>E, muitas vezes,<br>fazer isso cansado.<br>Fazer isso sozinho.<br>Fazer isso sem espa\u00e7o para parar.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o mundo \u00e9 l\u00edquido, o coletivo precisa ser mais s\u00f3lido.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisa sustentar.<br>Precisa acolher.<br>Precisa resistir \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Excluir algu\u00e9m desse espa\u00e7o \u00e9 enfraquecer essa base. \u00c9 retirar uma possibilidade de apoio. \u00c9 transformar um lugar de encontro em um espa\u00e7o de separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho tamb\u00e9m passa por essas dimens\u00f5es invis\u00edveis. N\u00e3o se trata apenas de estrutura f\u00edsica ou remunera\u00e7\u00e3o, mas de reconhecimento, de respeito e de constru\u00e7\u00e3o de ambientes que fortale\u00e7am o coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Consci\u00eancia de classe n\u00e3o \u00e9 apenas teoria.<br>\u00c9 pr\u00e1tica cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 reconhecer no outro aquilo que tamb\u00e9m nos constitui.<br>\u00c9 n\u00e3o aceitar divis\u00f5es que nos enfraquecem.<br>\u00c9 manter-se conectado, mesmo quando tentam separar.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, a \u201cSala dos Trabalhadores\u201d \u00e9 mais do que um nome.<br>\u00c9 uma escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha de permanecer coletivo<br>em um mundo que insiste em fragmentar.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha de abrir portas<br>onde antes havia limites.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha de lembrar, todos os dias, que:<\/p>\n\n\n\n<p>Antes do cargo, existe o trabalhador.<br>Antes da fun\u00e7\u00e3o, existe a pessoa.<br>Antes da hierarquia, existe o coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>E que, apesar de tudo \u2014<br>das regras, das estruturas, das tentativas de separa\u00e7\u00e3o \u2014<\/p>\n\n\n\n<p>ningu\u00e9m ali deixou de fazer parte do mesmo todo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre a \u201cSala dos Professores\u201d, questionando sua fun\u00e7\u00e3o excludente e defendendo que todos na escola s\u00e3o trabalhadores, independentemente do cargo; com base em Karl Marx, Paulo Freire e Zygmunt Bauman, argumenta pela ressignifica\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o como \u201cSala dos Trabalhadores\u201d, entendendo-o como essencial para fortalecer o coletivo em um contexto social cada vez mais fragmentado.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":563,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62,14,69,70,168,61,142],"tags":[59,65,169,60,11,18],"class_list":["post-560","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-apontamentos","category-cronicas","category-docencia","category-educacao","category-escola","category-norton-grey","category-trabalho","tag-artextos","tag-educacao","tag-escola","tag-nortongrey","tag-transformar","tag-vida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/560","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=560"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/560\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":570,"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/560\/revisions\/570"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/563"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=560"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=560"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.rhesolutra.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=560"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}