Se o mundo é líquido, o coletivo precisa ser mais sólido

A chamada “Sala dos Professores” nunca foi apenas um lugar.
É um símbolo.
E, como todo símbolo, revela tanto o que une quanto o que separa.

No cotidiano escolar, quase sem perceber, naturalizamos divisões. Portas que parecem neutras passam a carregar significados. Presenças se tornam “adequadas” ou “inadequadas”. E, assim, o que deveria ser um espaço de encontro começa, silenciosamente, a selecionar quem pode permanecer.

Quando se diz que um diretor ou qualquer outro trabalhador da escola não pode entrar na sala dos professores, não se trata apenas de organização. Trata-se de delimitação. De pertencimento negado. De uma fronteira que não está escrita — mas é sentida.

Uma porta se fecha,
e com ela, uma ideia de coletivo se enfraquece.

Uma regra se impõe,
e com ela, um silêncio se instala.

E é nesse ponto que a reflexão ganha profundidade. Karl Marx nos ajuda a compreender que as relações de trabalho não são neutras; elas estruturam a forma como nos vemos e como nos posicionamos. A divisão entre funções pode ser necessária do ponto de vista organizacional, mas torna-se problemática quando se transforma em distanciamento humano, quando rompe aquilo que deveria permanecer como base comum.

Porque há algo que insiste em permanecer, apesar de todas as tentativas de separação:

O diretor continua sendo um trabalhador.
A merendeira continua sendo uma trabalhadora.
O porteiro continua sendo um trabalhador.
O professor continua sendo um trabalhador.

Mudam os papéis, mas não a condição.
Mudam as responsabilidades, mas não a base comum.

E ainda assim, o olhar muda.
E, às vezes, o tratamento também.

É nesse deslocamento silencioso que se revela o que Pierre Bourdieu descreve como violência simbólica. Não é preciso proibir explicitamente. Não é necessário levantar muros concretos. Basta que todos, pouco a pouco, passem a acreditar que certos lugares não lhes pertencem.

E então, sem perceber,
o trabalhador começa a se afastar do trabalhador.

O coletivo começa a se fragmentar.

O que era comum se torna separado.

Mas questionar essas estruturas é um ato de consciência. Friedrich Nietzsche já alertava para o perigo das verdades que nunca foram interrogadas. Nem tudo que se mantém merece permanecer. Nem tudo que é aceito é, de fato, legítimo.

Questionar não é romper por romper.
É abrir espaço para pensar.
É recusar o automático.

E, ao fazer isso, nos aproximamos daquilo que Paulo Freire propõe como essência da educação: o diálogo. A construção coletiva. A humanização das relações. Não há educação verdadeira onde há distanciamento. Não há formação crítica onde há exclusão simbólica.

Se todos participam da construção do ambiente escolar,
todos precisam ter espaço para existir dentro dele.

E existir não é apenas trabalhar.
É também conviver.
É também respirar.

É nesse ponto que a ideia de “Sala dos Trabalhadores” ganha força — não como provocação vazia, mas como necessidade concreta. E aqui, o pensamento de Domenico De Masi nos convida a uma mudança de olhar. O ócio criativo não é ausência de trabalho, mas uma outra forma de produzi-lo. É no descanso, na conversa, na troca aparentemente despretensiosa que surgem ideias, soluções e sentidos.

Parar também é produzir.
Conversar também é construir.
Estar junto também é transformar.

A “Sala dos Trabalhadores” passa, então, a ser mais do que um espaço físico. Torna-se um território de reconstrução cotidiana. Um lugar onde o cansaço encontra acolhimento e onde a individualidade encontra o coletivo.

E essa necessidade se intensifica no mundo contemporâneo. Zygmunt Bauman descreve a sociedade atual como líquida — instável, veloz, fragmentada. Tudo muda rapidamente. Relações se tornam frágeis. O conhecimento se multiplica, mas nem sempre se aprofunda.

Nesse cenário, ser professor — e ser trabalhador da educação — é lidar com incertezas constantes. Já não basta ensinar. É preciso mediar, orientar, reconstruir sentidos em meio ao excesso de informação e à falta de tempo.

E, muitas vezes,
fazer isso cansado.
Fazer isso sozinho.
Fazer isso sem espaço para parar.

Se o mundo é líquido, o coletivo precisa ser mais sólido.

Precisa sustentar.
Precisa acolher.
Precisa resistir à fragmentação.

Excluir alguém desse espaço é enfraquecer essa base. É retirar uma possibilidade de apoio. É transformar um lugar de encontro em um espaço de separação.

Por isso, a luta por melhores condições de trabalho também passa por essas dimensões invisíveis. Não se trata apenas de estrutura física ou remuneração, mas de reconhecimento, de respeito e de construção de ambientes que fortaleçam o coletivo.

Consciência de classe não é apenas teoria.
É prática cotidiana.

É reconhecer no outro aquilo que também nos constitui.
É não aceitar divisões que nos enfraquecem.
É manter-se conectado, mesmo quando tentam separar.

No fim, a “Sala dos Trabalhadores” é mais do que um nome.
É uma escolha.

A escolha de permanecer coletivo
em um mundo que insiste em fragmentar.

A escolha de abrir portas
onde antes havia limites.

A escolha de lembrar, todos os dias, que:

Antes do cargo, existe o trabalhador.
Antes da função, existe a pessoa.
Antes da hierarquia, existe o coletivo.

E que, apesar de tudo —
das regras, das estruturas, das tentativas de separação —

ninguém ali deixou de fazer parte do mesmo todo.